Pagador de Promessas no Cine Santa Tereza - Santa Tereza Tem
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Pagador de Promessas no Cine Santa Tereza

O Pagador de Promessas no Cine Santa Tereza nesta terça, 05

O Projeto Cinema Falado de novembro apresenta o filme “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, que ganhou Palma de Ouro em Cannes em 1962. É uma oportunidade de encontro com críticos e cineastas para conversar sobre cinema, poesia, política e outros assuntos da cultura brasileira. A apresentação será do especialista em cinema Marco Túlio Ulhôa.

A realização destas sessões mensais, sempre com um filme de importância para a cultura brasileira, é do Centro de Estudos Cinematográficos De Minas Gerais (CEC- MG) e do Instituto Humberto Mauro, em memória do crítico e cineasta Geraldo Veloso.

Marco Túlio Ulhôa, que comenta a sessão, é doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, na linha de pesquisa de Estudos de Cinema e Audiovisual e especialista em Produção e Crítica Cultural pelo Instituto de Educação Continuada da PUC MG. Dedica-se ao estudo da comunicação e da teoria da imagem, tendo o cinema e o audiovisual como principais objetos de investigação, mediante suas relações com os campos da estética e da teoria literária. Desenvolve pesquisas concentradas na linha de estudo do cinema latino-americano.

O Pagador de Promessas

“O Pagador de Promessas”, filme dirigido por Anselmo Duarte (1920-2009), é uma adaptação de texto teatral homônimo de Dias Gomes (1922-1999), numa produção da Cinedistri, filmada na Bahia, em 1961.

Para o papel principal, Duarte escalou o ator Leonardo Villar, que protagonizara a encenação da peça teatral em São Paulo, em 1960. No elenco principal, Glória Menezes, Dionísio Azevedo (1922-1994) e os baianos Geraldo del Rey, Antônio Pitanga, Roberto Ferreira (Zé Coió) e Othon Bastos. Norma Bengell (1935-2013) faz a prostituta Marli. O diretor de fotografia é o inglês Chick Fowle.

O filme conta a história da tentativa de Zé do Burro (Leonardo Villar) cumprir a promessa de entrar na Igreja de Santa Bárbara com a cruz que carrega do interior do sertão baiano até Salvador, depois que seu burro estimado é curado de uma infecção causada por uma ferida.

Uma sucessão de planos curtos, no começo, resume o percurso de Zé e sua esposa Rosa (Glória Menezes) a caminho da capital baiana, passando pelos diferentes tipos de vegetação, “numa escolha de imagens calculada para evidenciar as etapas que se cumpre do árido sertão ao litoral”. A promessa fora feita em um terreiro de candomblé, diante de uma imagem de Iansã (santa Bárbara).

Zé havia prometido ainda que, caso o burro sarasse, repartiria sua pequena propriedade com outros trabalhadores do sertão, o que serve de pretexto para um jornalista (Othon Bastos) apontá-lo como um defensor da reforma agrária em uma das situações nas quais as intenções “puras” de Zé, isentas de consciência política, são desviadas pela imprensa ou pela Igreja.

Zé e Rosa chegam a Salvador de madrugada. A oposição entre a ingenuidade do camponês e a corrupção moral do mundo mercantil da cidade se constrói desde já: ao chegar, Rosa recebe o olhar insinuante de Bonitão (Geraldo del Rey), um cafetão. Zé não percebe a intenção de Bonitão, que se aproxima deles e, usa o argumento de uma tempestade que se anuncia, oferecendo um quarto de hotel para passarem a noite.

Zé dispensa o convite, mas, com a mente voltada apenas para sua missão de fé, permite que Rosa vá com o cafetão. Na manhã seguinte, quando o padre Olavo (Dionísio Azevedo) chega à igreja para rezar a primeira missa do dia, é abordado por Zé. Ao descobrirque a promessa se dera num terreiro, o padre nega-lhe o acesso à igreja.

Zé não desiste, privando-se do descanso e alimento enquanto luta para cumprir sua promessa. Esta é a confrontação dramática: a obstinação e a simplicidade do homem sertanejo em oposição à intransigência da autoridade religiosa e à vida complexa e corrompida da cidade.

No plano sociopolítico, o conflito se enuncia “entre a ortodoxia católica — Igreja institucional ligada às classes superiores — e o candomblé de origem africana, de grande penetração nas classes baixas”, demonstrando que “o problema da cultura popular e o da liderança política não eram, naquele momento, preocupações exclusivas ao Cinema Novo”.

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