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Santa Tereza tem memória: Lelinho e a Banda Santa

Passou o Carnaval, mas para contar histórias de Santê é sempre tempo presente. E quem nos fala da folia antiga de Santa Tereza é Lélio spindola, o Lelinho, que  tem o umbigo enterrado no bairro. Ele nasceu em 1939, em uma casa, ao lado do cinema, em frente à praça Duque de Caxias. Bom de prosa, aos 80 anos, continua carnavalesco, gosta de uma cervejinha, de um bom batuque e jogar peteca.

Em frente à casa onde nasceu funcionava, à época, o Bar Leger, (atualmente a Escaldaria) de seu pai Quintiliano Spindola. Segundo ele “o Leger era famoso e manteve as portas abertas por 30 anos,  até a década de 60.  Era movimentado, principalmente aos domingos, quando as pessoas vinham à Praça Duque de Caxias fazer comprar na feira de verduras e legumes. Todos os bares ficavam lotados”.

A praça era o quintal de sua casa, onde o garoto Lelinho corria, jogava futebol e brincava com os então meninos de Santa Tereza.  “Cresci brincando na Praça. Meu pai era conhecido como “dono da Praça”. Ele cuidava dela com carinho e vivia dando bronca na meninada que subia na grama.  Naquela época ele já era ecológico e, por sinal, muito bravo. Minha irmã acabou seguindo seus passos. Quando ela casou foi morar no sobrado da esquina da Estrela do Sul com Tenente Vitorino e de lá ela vivia brigando com os meninos do Tiradentes que aprontavam na praça”, relembra.

Foliões na porta do Supermercado Cruzeiro que infelizmente fechou em 2018

Amor por Santê

“Amo Santa Tereza. Quando casei, fui para o Caiçara. Quando separei a voltei. O ruim é que hoje não conheço quase ninguém. A turma já não existe. Antigamente todo mundo morava em casa e era mais fácil encontrar as pessoas”, observa.

Lelinho conta que “a casa onde nasci não mudou quase nada. Apenas ampliaram o espaço do bar. No cinema eu batia ponto todo dia. Cheguei a assistir a 365 filmes em um ano. O pessoal do cinema tomava café lá em casa e com esta amizade a gente não pagava.  O problema era a turma que ficava na parte de cima do cinema e tinha mania de jogar o tal do “alemão” no pessoal da parte de baixo. Fedia tudo. Gostei de ver o cinema reformado, mas precisa resolver a situação dos moradores de rua, em frente à entrada”.

Carnaval

Ele puxa pela memória e relembra que, além do carnaval de rua, havia bailes nos clubes: Ideal Teatro Escola, na Rua Estrela do Sul, no Clube dos 50, na esquina de Adamina com Mármore, e no do Oásis Clube. “Na época o Ideal foi arrendado pelo nosso time de futebol, o Renner, que depois passamos a chamar  Barbarella, por causa do Bar que a gente frequentava”.

É muita história. Lelinho conta que “havia os blocos caricatos: Os Diplomatas, que eu fazia parte, o  Satã e seus Asseclas, da turma da Rua Dores do Indaiá, e a  Escola de Samba Não Rapo Nada, do bar dos Pescadores, hoje Bar do Orlando.

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Pelo visto o Carnaval faz parte da história de Santa Tereza mesmo. “Os moradores acompanhavam na rua ou das janelas a passagem dos blocos. O pessoal da Não Rapo Nada, pegava o bonde pra ir desfilar na Avenida Afonso Pena e fazia a maior farra.  Com Os Diplomatas fomos campeões e vice-campeões nos anos 60. Nós iámos de bonde ou a pé ao som do batuque da bateria para o desfile na Avenida. Havia o Boca Branca, da Floresta, que sempre era campeão até a chegada de Santa Tereza com Os Diplomatas e Satã e Seus Asseclas. Depois disso oBoca Branca não ganhou mais. Apesar de amigos, havia uma tremenda e sadia rivalidade entre os blocos caricatos”, fala dando boas risadas.

Felicidade mora em Santa Tereza

“A Banda Santa, cuja concentração era no Mercado Distrital, começou com o tradicional jogo de futebol casados e solteiros, da turma que se reunia no Bar Barbarella em frente à Praça, onde hoje é o lugar de conserto de roupas. O bar era do João Barbarella, que já passou lá pra cima.   Era sempre no dia 8 de dezembro e depois do jogo a gente ia pro Bar tomar uma, fazer batuque e no final jogava farinha e ovos uns nos outros. Daí a gente resolveu fazer a Banda Santa, capitaneado pelo Tuneca, que hoje mora em Sabará”, conta ele.

A Banda Santa saiu de 1991 a 2001, sempre no sábado antes do Carnaval.  Ele conta que  “Bloco dá um trabalho danado, não é só colocar na rua. Pra arranjar dinheiro vendíamos camisas, a prefeitura pagava os músicos, o então deputado Alencar da Silveira cedia o caminhão.  Começou pequena, entre amigos, pessoal só de Santa Tereza. Depois foi crescendo no fim saímos com três trios elétricos e acompanhados por mais de 50 mil pessoas. Ficou inviável. ”
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Ele lembra que “havia a ala dos anjinhos, composta pelos homens, e a dos capetas, só as mulheres. E era legal que o Cel Hélio, ali do 16º Batalhão também saia na banda com sua família. Ele ia em um jippe, abrindo caminho para o bloco passar.

Lelinho na ala dos Anjos

A banda tinha até um hino composto pelo músico Marilton Borges e daí surgiu a frase “Felicidade mora em Santa Tereza”. Lelinho, como é chamado pelos amigos explica que “A frase pegamos emprestado de Santa Teresa, com “s”, do Rio de Janeiro. Era uma farra. A banda Santa, no início, só tocava marchinha. Mais tarde com mais de um trio elétrico passou também a tocar música baiana. Mas eu gosto mesmo é de marcha, eu sou batuqueiro”, encerra a prosa.

Fotos antigas do acervo de Lélio Spíndola

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