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Protagonismo feminino no Carnaval de BH

Hoje, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, é uma data importante para reafirmar os direitos da mulher e conscientizar a população contra o abuso sexual, a violência e o feminicídio.

E as mulheres estão tomando a frente dessa luta em vários espaços, inclusive no Carnaval de Belo Horizonte de 2019, que em relação aos anteriores, teve um aumento significativo da participação feminina, nas baterias, na criação de blocos femininos. Essa presença se deu até na montagem de estrutura do evento, feita pela empresa Do Brasil Projetos e Eventos, que venceu a licitação da PBH, e é liderada por duas mulheres, Júnia Viana e Patrícia Tavares.

Mulheres integram as baterias dos blocos . Foto Eliza Peixoto

 Com pautas feministas, diversos blocos formados apenas por mulheres desfilaram em 2019, como o Bruta Flor, Luz de Tieta, Sagrada Profana – que homenageou Marielle Franco, Baque de Mina, Tapa de Mina, Hip Hop Folia – do coletivo Maritacas MOB, o lésbico e bissexual Truck do Desejo, Quem Ama Não Mata, Roda de Timbau.

Mas não foram só nos blocos de rua que elas foram protagonistas. Contra o assédio, o coletivo “Não é Não” confeccionou, via financiamento coletivo, centenas de tatuagens temporárias com a frase que tomou conta das ruas. Enquanto o Grupo contra o Assédio Sexual a Mulheres no Transporte Público, composto por agentes femininas da Guarda Municipal de Belo Horizonte e da BHTrans, se uniu à equipe da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU-BH) e executou ações educativas de combate à importunação sexual.

Helga Almeida, professora universitária, é uma das pioneiras nessa participação feminina do carnaval, quando em 2012, entrou para a bateria do bloco Tchanzinho Zona Norte. Ela comenta que “naquela época as mulheres eram minoria, mas ao longo dos sete anos de renascimento do Carnaval de BH, pode-se ver claramente o aumento exponencial do número de mulheres. A mulherada belo-horizontina foi dedicando-se e, não apenas assiste ao carnaval, é protagonista, fazendo o som para milhares de pessoas”.

 O Tchanzinho  Zona Norte, apesar de não ser um bloco só de mulheres, hoje, segundo Helga, é composto de uma maioria de regentes de naipes mulheres e na bateria também – dos surdos aos pandeiros. Ela mesmo é a regente do naipe de tamborins e conta que toca xequerê no bloco Volta Belchior, que desfila em Santa Tereza, no qual as regentes da bateria são duas mulheres negras, Laiza e Vicki.

Helga Almeida com o xiquerê – bateria Alucinação do Bloco Volta Belchior. Foto: Eliza Peixoto

Por meio dela outras mulheres se juntaram aos blocos. “Fico feliz por ter trazido várias amigas para tocar nos blocos, especialmente por ter introduzido minha mãe, Iara Almeida, que toca tamborim no Tchanzinho Zona Norte e xequerê no Volta Belchior”. Assim vamos fortalecendo o Carnaval democrático e a presença protagonizadora e forte das mulheres em nossa cidade”, comenta.

A musicista, Ana Luíza Braga Simão, a Analu Braga, dirige com classe a bateria do Bloco da Esquina, que tem o pé em Santa Tereza. Sua história carnavalesca começa em 2007, em bloquinhos do Rio de Janeiro e no Bloco Maracangalha formado majoritariamente por mulheres. Em 2009, a convite dos violeiros Chico Lobo e Pereira da Viola participou do Carnaviola, na Praça da Liberdade e observa que partir dessa época percebeu a presença feminina maior na percussão, que até então era um lugar predominantemente masculino. Em 2012 integrou o Alcova Libertina, o Baque de Mina e com sua tia Celinha Braga, criou o Atrás do Jacaré.

Ela analisa que “nessa época os blocos de rua foram crescendo, juntamente com um momento político importante na cidade e no país. As pessoas começaram a lutar por respeito, espaço, representatividade e empoderamento, algo mais que necessário entre as mulheres. Daí vieram grupos como Sagrada Profana, A Luz de Tieta e Truck do Desejo”.

Analu Braga no ensaio da bateria do Bloco da Esquina. Foto: Eliza Peixoto

Analu Braga salienta que “as mulheres estão saindo às ruas com seus instrumentos e seus copos carnavalescos ou não, pelo direito de andar na rua sem ser assediada, de namorar, quem quiser, inclusive uma pessoa do mesmo sexo, sem sofrer violência, sem discriminação racial ou de gênero, e sentindo-se fortalecidas umas pelas outras, se andamos e criamos juntas”.

Julie Amaral idealizadora, produtora e vocalista do bloco A Luz de Tieta, que saiu em Santa Tereza neste carnaval, tocando com 10 mulheres as músicas de Caetano Veloso.

Ela observa que “a presença feminina no Carnaval, parte da mulher perceber que se não fizer por ela mesma, ficamos sem espaço. Isso é em um contexto geral. Nós como seres humanos temos de acreditar no nosso potencial interno e de construção. E no caso da mulher, quando a gente se soma, percebemos que nos tornamos uma fortaleça à parte”.

Julie Amaral no desfile do A Luz de Tieta, em Santa Tereza. Foto Eliza Peixoto

Ela acrescenta que “a mulher está despertando o seu poder inato, colocando pra fora aquilo que a gente é. Esses paradigmas de gênero são muito profundos e temos de entender que luz de cada ser humano mora dentro si e quando ele segue um objetivo desperta a força que própria. E as mulheres têm percebido a força que elas trazem naturalmente e que sempre foi reprimida e bombardeada histórica e culturalmente. Está na hora de mostrar o outro lado, onde podemos trabalhar isso sem grito de guerra, que não é a nossa cara. E temos feito bonito. A arte é o lugar para trabalhar isso através do amor, que é a maior ferramenta de todas”.

O bloco Quem Ama Não Mata, saiu do movimento do mesmo nome, uma reedição de um grupo de feministas que realizou, em agosto de 1980, um ato público no adro da Igreja São José, contra o assassinato de mulheres. Na época, a frase “Quem Ama Não Mata” foi pichada nos muros de BH como protesto ao crime de feminicídio, que, infelizmente, ainda continua.

Mônica Santos – Foto arquivo pessoal

A jornalista Mônica Santos, que criou a marchinha entoada pelo bloco, comenta que “ao companhar os inúmeros casos de feminicídio em Minas e no país, decidi descruzar os braços e ajudar na reedição do Movimento Quem Ama Não Mata, juntamente com outras mulheres indignadas com a situação. E bloco faz parte dessa luta”. Foi daí que surgiu a inspiração da marchinha que tem o ponto forte no refrão: “Violência não, assédio também não, paz, alegria e amor no coração”.

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