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De toco em toco, Santê morre um pouco

De toco em toco, Santê morre um pouco

Por Robson Leite (texto e fotos)

 Caminhando a passos curtos da Praça Duque de Caxias até meu prédio, na Barão de Saramenha, me deparei com eles. Restos de árvores cortadas pelo caminho começaram a me chamar atenção. Os chamados tocos – pedacinhos do tronco e raízes. Nunca havia reparado na quantidade. Uma dezena deles, só no trajeto pela Mármore, Tenente Durval, Tenente Freitas e Quimberlita. Muitos mesmo. Há mais. Alguns antigos e outros de dia desses, mesmo.

Uma pesquisa rápida nos jornais e descubro que, desde 2012, existe uma praga na cidade chamada Besouro Metálico. Parece até nome de vilão de filme de super-herói. “Maldito Besouro Metálico! Chamem o Batman!” Mas não é ficção e o inseto, propriamente, não é problema. Os filhotes, ainda larvas, sim. São elas que carcomem os troncos por dentro e destroem a madeira, gerando risco de desabamento.

Há tempos fala-se 1800 espécies de árvores em risco na capital. Em texto publicado em junho, o site BHaZ traz dados assustadores da PBH: em 2017, foram realizadas mais de três mil vistorias em caules atacados pelo inseto. Ao todo, mais de 500 árvores foram suprimidas. Pior: a lei brasileira não permite o controle de pragas com veneno. Algo que, a princípio, me parece bom – mas não sou técnico. E o que a PBH faz pra combatê-la? Chama o Batman? Não. Isso aqui não é Gothan City.

Ela derruba a árvore.

Se isso realmente vai prevenir incidentes, então ok.

Uma pena, obviamente. Só que já houve casos de mortes por causa de árvores com as raízes podres, troncos deteriorados etc, que tombaram sobre casas, carros e até pessoas. O que me causa indignação é a falta de consciência geral para a necessidade do replantio. E imediato. Cortou, planta outra. Fui pesquisar de novo sobre o porquê de já não terem feito isso, ao menos nos casos mais recentes de cortes.

No site da PBH está escrito somente o seguinte sobre plantio de árvores na capital: “(…)pode ser feito pelo cidadão, mas deve ser autorizado pela Prefeitura e deve seguir orientação do técnico da PBH. (…) Embora esse serviço possa ser solicitado em qualquer época do ano, sua execução é sazonal (ocorre somente entre os meses de setembro e fevereiro)”. O texto diz ainda quem o morador pode indicar a espécie, mas é a prefeitura quem aprova ou não.  É possível ter mais informações pelo telefone 156.

Não há nada sobre replantio após a supressão.

Ora, existe uma praga na cidade há mais de seis anos, que obriga cortes sumários de árvores. E ainda não há política pública contra isso? Nem pra uma emergência? Ainda depende dos cidadãos qualquer iniciativa? Porque os tocos estão aí, expandindo-se no cenário urbano à vista d’olhos, pra quem quiser ver. Não há nada replantado no lugar. E quem pode me dizer se todos são por causa da praga do tal besouro?

O poder público não entende que, sem árvores, há uma série de problemas ambientais a enfrentar? A população só começa a se preocupar quando observa consequências: calor cada vez mais sufocante, falta de sombra pra fugir do sol quente etc. Quantas árvores a mais serão cortadas antes de uma contrapartida da sociedade civil, que obrigue a PBH ou quem quer que seja ao replantio urgente? Se realmente existe uma praga na cidade, parece que ela tem outro nome.

Chama-se “estupidez”.

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